Animes Decepcionantes 2021

Os elencados representam uma visão totalmente subjetiva, não procuro trazer animes que foram decepcionantes para a comunidade, mas sim que pessoalmente romperam com minhas expectativas.

Vale mencionar que não é um sinônimo de ruim, a obra pode ser ainda assim boa.

Godzilla: S.P

Godzilla voltou a ter destaque graças ao universo cinematográfico do 'MonsterVerse" da Universal, e para impulsionar ainda mais a marca e surfar na onda da ansiedade a Netflix financiou, pelo estúdio "Bones", a produção de uma obra original ambientada no universo do monstro.  — O serviço tem histórico com adaptações da franquia em animes, como no caso da trilogia de filmes do estúdio "Polygon", e infelizmente "S.P" seguiu na mesma direção daqueles, mais uma vez, decepcionante —.

Dentre suas qualidades inegáveis estão: a direção de arte, muito agradável e remetente a estética de obras dos anos 90, o que da um sentimento nostálgico e sai um pouco dos padrões atuais; character design lindo da autora de "Ao no Exorcist", "Kazue Katou"; excelente direção de cores, o uso do vermelho na fumaça dos kaijuus cria uma atmosfera ótima; e trilha sonora, que lembra as antigas séries do personagem, algumas delas inclusive utilizadas como elemento da narrativa (o famoso idol group "Bish" está na abertura).

— O anime ainda faz referências e resgata aspectos clássicos da série, como no caso da presença do personagem, "Jet Jaguar", apresentado nos live actions dos anos 70 —.

Mas, apesar dessas qualidades serem evidentes, infelizmente a animação em CG prejudicou em diversos momentos, principalmente cenas de ação e na estética, isso porque foi amplamente utilizada em monstros (raros os momentos onde esses foram animados em 2D), sendo muito destoante dos cenários e animação em 2D. Para ser justo, em alguns episódios específicos e em cenas, como as que o Godzilla aparecia em primeiro plano, a transição entre os estilos de animação foi orgânica, especialmente quando o CG era utilizado como auxílio, como nos efeitos de poderes dos kaijuus e explosões. Mas na maior parte do tempo esse é incômodo. Ainda assim, isso pode ser relevado, é evidente, mas não necessariamente impeditivo, há variações positivas e a direção de arte o compensa.

O real problema de "Singular Point" é seu roteiro, principalmente sua conclusão, e narrativa.

Da mesma forma que acontece com os filmes live action recentes, começa bem, recheado de mistérios intrigantes e personagens carismáticos. Os conceitos técnicos e teóricos apresentados, para explicar o aparecimento dos monstros, e a busca de respostas dos protagonistas com base na pesquisa dessas informações é inicialmente interessante. Todavia, não demora para que o "bla, bla, bla", pseudo-inteligente comece a ficar monótono, de forma que a narrativa não consiga condensar essas informações de forma dinâmica, e a ausência por muito tempo do grande nome da obra, "Godzilla", torne tudo ainda mais entediante. Passar pelo lento desenvolvimento para finalmente vê-lo em ação, é tortuoso.

Para piorar, os conceitos "complexos", que dão a impressão de direcionarem a uma conclusão diretamente correspondente a complexidade, de nada servem, onde o ato final é finalizado de forma simplória e extremamente conveniente baseado em "Deus Ex Machina", tornando todos os termos (singular point's, "diagonalaser', etc.) e os esforços dos personagens, totalmente dispensáveis.

Foi um anime entediante, que não focou nos monstros, mas sim no papel dos humanos no conflito, e ainda assim falhou no desenvolvimento pessoal e conclusão das ações desses.

Higurashi no Naku Koro ni Gou/ Sotsu

As temporadas originais de Higurashi eram divertidas e na maior parte do tempo conseguiram manter o interesse por conta dos mistérios, personagens carismáticos, atmosfera densa e principalmente bizarrices. Porém, aquelas perdiam muito potencial pela sofrível produção e roteiro repetitivo.

Naturalmente as expectativas eram que uma temporada de 2021 (inicialmente não se sabia se seria um remake, reboot ou, como foi o caso, uma continuação) corrigisse esses problemas, melhorando a qualidade de narrativa, mas principalmente de animação, o que infelizmente não aconteceu.

Não só o anime continua mal animado, como a mudança de design acabou com a identidade visual, agora mais se assemelhava a um "Monogatari" ou "Grisaia" (animes dos quais o novo character designer também trabalhou) do que com "Higurashi".

A escolha de continuar a trama, dessa vez focando nos aspectos fantasiosos do universo, centrando-se mais nos poderes das bruxas (um conceito pouco explorado nas anteriores) e habilidades das protagonistas, não se justificaram, principalmente porque as motivações de personagens que conduzem os novos dramas são rasas, e a introdução dos novos conceitos destoantes do status quo das temporadas anteriores.

"Rebootar" uma linha temporal que já havia recebido conclusão, para novamente apresentar linhas variáveis, resultou em uma trama repetitiva, sem grandes novidades, e como consequência, entediante.

Mas o problema central foi as interações entre os personagens. Como há uma descaracterização das personalidades, as motivações se tornaram rasas e ilógicas (vários sofreram com isso, mas o destaque negativo ficou para "Satoko"), resultando em eventos incômodos pelas situações que os personagens foram inseridos e suas ações.

Decidiram continuar um final fechado, trabalhando com uma estrutura a esse ponto maçante, descaracterizando personagens queridos pelos fãs apenas para que esses se tornassem meros recursos (toda a emotividade de seus arcos foi perdida), não melhorando em quase nada os problemas de produção da anterior e piorando a construção da atmosfera de terror, o elemento principal da obra, que quase se perdeu por completo.

Kaizoku Oujo

Fena foi um projeto original do estúdio "Production I.G" com mais um serviço de streaming, "Crunchyroll", da mesma forma que havia anteriormente acontecido com a "Netflix" em "B: The Beginning".

A qualidade técnica apresentada nos trailers e posteriormente no anime era muito alta e isso tende a ajudar a atingir bons resultados, porém, foi uma pena que o histórico de animes originais fracos do serviço e das recentes produções originais da Production I.G (que contaram com o mesmo diretor "Kazuto Nakazawa") rendeu outro exemplo negativo, porque Fena é mais ‘show’ técnico com péssima narrativa.

Esse tem de longe uma das melhores produções do ano, a qualidade de animação é insana, com direito a cenas que parecem ter saído de longas 2D dos estúdios Disney. Existe uma específica envolvendo uma batalha naval que é assustadoramente detalhada. Essas qualidades permeiam também o aspecto artístico, mesmo que nada apresentado seja exatamente original, é de grande competência.

Pode-se afirmar também que há valências na direção, mais especificamente em sequências de ação e na apresentação de localidades (é um anime de piratas então faz sentido que isso seja um foco), os closes utilizam da ótima fotografia com perspicácia. O problema é que as cenas dramáticas são sem "alma", o que em conjunto a um roteiro fraco falham em criar empatia.

Inicialmente o anime é sobre piratas, a protagonista Fena, vivia em um prostíbulo, e antes de ser obrigada a ter seu primeiro cliente é salva por figuras misteriosas que a levam para um clã de um país oriental. Eles colocam uma divisão, "goblins" para passarem a defende-la e explicam que essa teria alguma ligação com um material esquisito que seria a chave para um grande segredo (basicamente um tesouro). Eventualmente mais facções partem atrás dela, até que descobrimos o óbvio, ela tem um passado conectado a pessoas importantes sendo dessa forma fundamental para a resolução do mistério — clássica trama do protagonista "escolhidos/destinados" que já estamos cansados de acompanhar —.

Tentam criar um relacionamento de comunidade entre a protagonista e quem a escolta, porém apesar de alguns personagens serem carismáticos, as interações são pouco orgânicas, unidimensionais e previsíveis, o romance de Fena com Yukimaru é o perfeito exemplo.

Para piorar o que parecia uma aventura clichês de caça ao tesouro extrapola a níveis megalomaníacos, envolvendo entidades surgidas do nada, conceitos sem conexão, como "resetar" universo, julgar o destino da humanidade, etc., — o final desse anime parece uma tentativa infame de referenciar Evangelion, sem o menor contexto lógico, a escala dos acontecimentos não é nem um pouco orgânica, muito menos contextualizada —.

No fim Fena é mais um daqueles lindos animes que não conseguem se sustentar sem uma boa trama. Talvez valha a pena para quem é entusiasta apenas de visuais.

Uma pena, e um verdadeiro desperdício de animação.

Mushoku Tensei: Isekai Ittara Honki Dasu/ Part 2 

Nos animes podemos dizer que o grande responsável pela (maldita) inacabável onda de isekais foi "Sword Art Online", depois dele em todas as temporadas existem pelo menos dois do subgênero, e a esse ponto foram tantas as obras adaptadas que as diferenças de temática já se tornaram vergonhosas, porque seja o isekai do smartfone, do assassino ou do jovem adotado por monstros, a esmagadora maioria deles tem exatamente a mesma estrutura,  dinâmicas e resoluções semelhantes.

Esse mesmo fenômeno aconteceu nas novels e segundo muitos o ícone desse foi "Mushoku Tensei", que efetivamente definiu os parâmetros, tanto de narrativa, quanto estética.

Ambas as temporadas da adaptação são impressionantes tecnicamente, os visuais são estonteantes, a animação fluida, cenas de ação muito bem conduzidas e direção de arte acima da média de todos os animes de isekai de temporada já lançados, porém, não é só de elementos artísticos que se faz um anime, e Mushoku Tensei tem diversos problemas em seu roteiro, e principalmente na "índole" de sua trama, apresentando muitas situações, no mínimo, embaraçosas e desconfortáveis, e até o fim dessas duas temporadas, sem a menor problematização do causador dessas (o protagonista), na verdade, a obra não perde a oportunidade de suavizar as atitudes dele através de argumentos ridículos.

Não há grandes melhoras na segunda temporada. Talvez o único ponto positivo é que a passos de tartaruga Rudeus começa a refletir sobre como as pessoas ao seu redor se sentem e como deve agir para presar por aqueles que se importam com ele  — como no caso do relacionamento com seu pai —. Porém, os mesmos problemas de sexualização e apologia a pedofilia realizada pelo personagem à Eiris, são presentes. "Ah, mas eles convivem há mais de 3 anos, e desenvolveram sentimentos"; isso não muda o fato do protagonista ser um cara com 40 anos de idade mental e ela uma pré-adolescente, continua nojento e o anime não deixa de tratar isso como se fosse uma mera piada de um protagonista apenas pervertido. — O cabal episódio 11 é o ápice da "escrotidão", e não duvido que a ainda exista quem defende os acontecimentos daquele —.

Nesse mesmo aspecto do ecchi, há também a introdução de uma das personagens novas, a elfa "Elinalise". Ela é basicamente a desculpa do anime para fazer piada a respeito de suruba e voyeurismo e ceder a cota de fanservice para seu público alvo. Toda cena que aparece está transando (sim, eu sei o motivo disso, mas não deixa de ser idiota). — Clássico caso de obra adolescente que quer parecer adulta e aposta nos excessos —.

Mas mesmo que você tenha estomago para ignorar essas babaquices, o anime não tem apenas problemas morais, mas também de estrutura de narrativa e roteiro. Existem diversas facilitações e conveniências durante a segunda temporada.

Um exemplo da primeira é o próprio arquétipo "Gary Stu" do protagonista, uma criança prodígio (que original...), mas também do companheiro dele 'Rujerd", de uma raça ultra poderosa e temida, que coincidentemente tiveram a sorte de ter sido quem os salvou e quer os ajudar. Assim, mesmo quando Rudeus faz alguma cagada, há ele para resolver a situação, o que dispensa na prática qualquer conflito no anime, não há nada para ser temido, não há sentimento de urgência, eles facilmente vencem. Para piorar essa falta de conflito, há também o "Deus ex machina" (literalmente), onde a entidade que reviveu Rudeus agora o ajuda com previsões do futuro.

Há vários exemplos, como:

  • Rudeus é teleportado para um lugar desconhecido, após poucos dias em uma jornada, para voltar à sua cidade, encontra uma vila, justamente a vila com pessoas da "raça" de Roxy, sua mestra. E adivinhe, parentes dela encontram com ele, o que é utilizado para posteriormente a própria tomar conhecimento que seu discípulo sobreviveu, algo que seria improvável considerando o tempo e distância entre os locais onde estavam.
  • Rudeus é preso por uma raça de meio-humanos após ser confundido com um bandido, e na cela conhece "Geese". Sabe quem Geese conhece? O pai de Rudeus. Não só conhece como faz parte do grupo dele. Que coincidência maravilhosa, no mesmo fim de mundo, na mesma cela, pessoas com conhecidos, relevantes, em comum se encontram.
  • Nessa mesma tribo de meio humanos há também parentes de "Ghislaine", a tutora dele, o que o ajuda para ganhar confiança e terminar o mal-entendido (sério, porque da necessidade de conectar tudo, em detrimento da lógica?).
  • Até mesmo o meio-humano, com face de cavalo, que Ruijerd e Rudeus haviam derrotado na cidade, tem conhecidos em comum, no caso Roxy.
  • A emprega/amante de Paul foi também teleportada junto da filha deles, e essa foi ser capturada justamente pelo príncipe do qual Roxy dava aula.
  • Rudeus encontra uma figura imponente, que faz Rujerd tremer de medo, e esse, que é sempre perspicaz decide agir, nessa situação específica, como um imbecil, contando tudo sobre eles para o estranho (só faltou falar o que comeu no café para o inimigo), e, claro, pagando por isso. Porque o anime precisa ligar o universo, mesmo que para isso tenha de criar uma atmosfera artificial e fazer seu protagonista de burro.

O universo é tão pequeno não é mesmo? Impressionante como todo mundo se conhece, parece até telenovela.

Muitos podem julgar que isso é mera implicância, e que mesmo com trocentas conveniências e incoerências evidentes (como, por exemplo, o protagonista misteriosamente não usar o olho dele de antevisão, quando entrou em um castelo desconhecido, e dessa forma caiu em uma armadilha que poderia ter sido facilmente prevista), dá para relevar. Mas penso que isso só seria possível caso esse anime não fosse considerado por tantos como 'ótimo', e não tivesse tamanha relevância e estimação em seu, popular, subgênero.

A popularidade e expectativa encima dele naturalmente fez com que a escala de exigência fosse maior, e o que esse entregou foram os mesmos problemas e falta de brilhantismo de todos os 15/20 animes de isekai que saem por ano.

Se essa obra realmente foi a que definiu a estrutura narrativa e arquétipos dos isekais atuais, está mais que explicado porque a maioria deles são porcarias, o progenitor já era péssimo o suficiente.

E sim, estou ciente das afirmações de que mais adiante as atitudes do protagonista serão contestadas, que ele vai supostamente melhorar e virar alguém menos escroto, porém, estou falando sobre o que já foi exibido.

De qualquer forma, por enquanto, Mushoku Tensei é como um namorado (a) bonito (a) que trai, tem o visual agradável, mas o interior podre, e a trama desse anime definitivamente é podre, em diversos sentidos.

Resident Evil Infinite Darkness

O histórico de adaptações de Resident Evil é trágico, não há discussão a respeito disso. E mesmo os filmes CGI não são lá essas coisas, porém esses pelo menos pertencem à cronologia principal e dessa forma adicionam algumas informações relevantes para a lore da saga, o que para fãs é mais que motivo suficiente para acompanhar.

O problema de Infinite Darkness é que esse não somente tem os mesmo problemas de todos os filmes anteriores, o que significa: roteiro raso; vilões com motivações pouco originais, principalmente no contexto de Resident Evil (são basicamente os mesmos arquétipos de sempre); personagens com interações desinteressantes; e cenas de ação descartáveis; como dessa vez nem ao menos apresenta algo relevante para o histórico da franquia.

Os três anteriores pelo menos introduziam temas que os jogos futuros abordariam, funcionando como "pontes". Mas aqui novamente tocaram no mesmo tema do "controle de informações do governo sobre os eventos de Raccoon", algo abordado a exaustão, e cerne da trama de Leon em Resident Evil 6.

Até a mudança de formato, que poderia ser algo vantajoso, também não interferiu em nada, na prática a série é basicamente um filme com a mesma duração dos três anteriores, todavia segregado em quatro partes, ou seja, não tem maior detalhamento, ou qualquer característica e vantagens do formato de série.

Pelo menos não existe nenhuma cena vergonhosa como aquela do Leon atirando e lutando com uma horda de zumbis em "Vendetta" (que continua sendo o pior); a animação foi boa, para os padrões de anime em CG; e Leon e Claire, como sempre, funcionam bem juntos.

Recomendado apenas para quem é muito fã da série, do contrário é praticamente dispensável.

Shingeki no Kyojin Finale 

Esse foi um dos animes que mais dividiu opiniões durante o ano. Enquanto alguns, o glorificaram como a maior temporada da série, muitos odiaram e inclusive aproveitaram da polêmica conclusão do mangá para destilar ódio em cima do anime.

Gostei de vários aspectos, principalmente das mudanças de abordagem após a reviravolta, porém, ainda que tenha sido uma experiência agradável, e a temporada nem de longe ser ruim, diversos aspectos me incomodaram.

Para já tirar do caminho, assim como a maioria dos espectadores as mudanças de produção também foram decepcionantes para mim. Não foi péssimo como muitos afirmaram, porém, a distinção tanto de animação; que adotava agora o CGI não apenas em elementos específicos, mas em batalhas de titãs e (em alguns momentos) também em humanos; quanto direção de arte, foi muito gritante. Mesmo que no último essa tenha se aproximado mais do traço do material original, não foi uma transição benéfica, pois a identidade visual das temporadas anteriores já estava definida, e modifica-la nessa altura do anime causou um natural estranhamento.

O meu maior problema, porém, não foram esses, nem mesmo a tão polêmica personagem "Gabi", e as mortes que aconteceram, mas sim as conveniências.

Em diversos momentos há situações muito forçadas, ao ponto de ser perceptível que o roteiro está artificialmente arquitetando eventos para chegar nas conclusões desejadas, mesmo que para isso necessite ignorar coerência de eventos. Sentir que as interações dos personagens com o universo são controladas é um problema, pois quebra a imersão.

Minha suspensão de descrença foi rompida diversas vezes por essas "coincidências" e incoerências de atitudes de diversos personagens. Um exemplo ilustrativo é quando Gabi, ao invés de ser morta é presa, consegue fugir da prisão, mesmo sendo uma criança vigiada por soldados, e encontra, em meio a uma ilha gigante, justamente a amiga e os pais da pessoa que ela havia sido presa por assassinar, os enganando para no momento mais interessante para a narrativa, um conflito de quebra de confiança e superação de rancor fosse apresentada. Com isso, mesmo que os meios tenham sido artificiais, foi possível que a mensagem desejada pelo roteiro fosse transmitida, e as convicções da protagonista auto contestadas para preparar o terreno de sua reviravolta pessoal. O problema é que isso foi construído por circunstâncias mal conduzidas (o arco inteiro de Gabi encontrando com Eren, e ele com antigos parceiros, é uma compilação de conveniências simultâneas).

O que incomoda é que esse foi mais um caso de shounen focado no público adolescente que optou por simplificar seu desenvolvimento e criar resoluções facilitadas em detrimento de detalhamento (no fim sabemos que nem sempre é culpa do autor, a pressão editorial nesse tipo de obra é muito alta).

Vale mencionar também que a propaganda em cima da conclusão, onde até o título era nominado "Finale", foi um pouco desonesta, já que o "finale" não se concretizou, sendo essa apenas a primeira parte da temporada (anteriormente não anunciada como segregada). Os ansiosos para a conclusão tiveram de esperar mais um ano.

Ainda assim, como citei, a temporada me agradou, pelas novas dinâmicas políticas e discussões levantadas e, claro, aspectos clássicos: continua épico, divertido, tenso e empolgante.

Tokyo Revengers

Tokyo Revengers apresenta uma trama de viagem no tempo, onde o protagonista que está vivendo de maneira decadente recebe a oportunidade de mudar de vida retornando ao passado, quando integrava uma pequena gangue. No passado tenta resolver sua vida, mas novamente percebe ser um fracasso, após não conseguir evitar que seus amigos fossem derrotados por outro grupo.

Após esse evento encontra o irmão de sua namorada da época, "Shinichirou", após conversarem apertam as mãos. Com isso Takemichi volta para o futuro, onde encontra esse irmão adulto, agora um agente da polícia, e ambos descobrem que a "chave" para a viagem no tempo era o aperto de mão (sério, acredito que essa justificativa ganha da de "Orange" como a pior em animes de viagem no tempo). O agente explica que precisariam mudar o passado para salvar a vida de Hina (a namorada), morta em um conflito da gangue "Maji'.

Eventualmente Takemichi conhece os membros dessa gangue, vira amigo deles, se envolve em conflitos e vai, a partir da tentativa, erro e reboots temporais, compreendendo o que tem que fazer para mudar o destino.

Salvo raras exceções, a maioria dos personagens são baseados arquétipos clássicos de battle shounens. Sendo a construção da amizade do protagonista com Draken e seus parceiros um dos únicos pontos positivos das relações. Fora do núcleo principal a maioria dos personagens são esquecíveis, mas ao que tudo indica haverá tempo de desenvolver cada um deles, então ainda mantenho as esperanças que esses apresentem maior dimensionalidade no futuro.

Dentre os aspectos mais criticados pela comunidade, notei que a personalidade de Takemichi foi a principal, mas particularmente suas características não foram o que me incomodaram a respeito do protagonista (gosto de personagens com limitações, pois isso aumenta a identificação com o público) e sim o quão conveniente o roteiro foi para o guiar a situações praticamente impossíveis. Existem momentos onde diversos personagens mais qualificados poderiam resolver os conflitos, em especial no arco "Halloween de Sangue", porém são inertes ou impedidos por condições pouco convincentes, para que assim o protagonista tenha seu minuto de glória (o "poder do protagonismo" entra em cena diversas vezes). O objetivo aqui não é dar spoilers, mas quem assistiu provavelmente vai lembrar de uma morte evitável que aconteceu apenas para Takemichi transmitir uma mensagem e dessa forma ganhar a confiança de um determinado personagem.

Na verdade, ele estar no local certo no momento exato é apenas uma pequena porção de um roteiro péssimo, e isso vai desde a premissa batida de salvar a garota em perigo, a estranha justificativa do funcionamento da viagem no tempo, à resolução em um cliffhanger desonesto.

Para completar a lista de problemas está a produção, que poderia ter salvado a adaptação, assim como outros animes de ação com tramas fracas, mas excelentes batalhas, porém, no fim, prejudicou ainda mais. Momentos que precisavam ser épicos como o próprio Halloween, ou a cena da batalha na chuva, perderam o impacto, porque as sequências foram mal animadas, recheadas de distorções de quadros e frames estáticos.

Porém, quando o assunto foi a trilha sonora brilhou. Se em algum momento fiquei empolgado ou emotivo por uma cena com certeza a qualidade das composições tiveram crucial influência.

Foi por diversas vezes divertido, principalmente por conta da temática, que apesar de ser recorrente nas mídias japonesas, raramente aparecia em animes. O aspecto que criou a minha decepção pessoal foi basicamente a expectativa criada em cima da qualidade da trama, e a péssima estética.

Wonder Egg Priority

Um anime não necessariamente precisa ser ruim para ser decepcionante, às vezes a decepção é algo diretamente subjetivo, por vezes ligada a fatores externos, e em outros casos, como com esse, por problemas de produção e resolução.

A decepção não é pelo que ele é (esse tem ainda seus méritos, principalmente nas discussões e evidenciações que tece a respeito da sociedade) e sim, poderia ter sido. Isso porque, como diversas produções serializadas, sofreu com problemas de prazo e planejamento de tempo, o escopo da produção foi muito grande o que levou a equipe a passar vários percalços, que resultaram em um final adiado em OVA meses depois da conclusão da série.

Fora sua espetacular produção, com cenas de ação fluidas, excelente direção artística e direção de cenas, principalmente as dramáticas, o que sustentou o anime foi seu roteiro, recheado de mistérios em meio a um universo fantasioso que representava de forma física os dramas de garotas que passavam por traumas e conflitos internos. A abordagem desses sentimentos, situações fortes que os causaram, como as protagonistas lidavam com pessoas em situações semelhantes, e a maneira que cada um desses, e fatores sociais alheios, influenciavam em sua evolução pessoal, foi impressionante.

Porém, mesmo com o final separado, e lançado meses após a série, ainda assim diversos aspectos do universo não foram explicados e arcos das personagens, ou foram resolvidos de forma rasa, ou, em determinados casos, nem o tiveram. O pior de tudo é que o OVA em questão teve 40 minutos, sendo que 20 deles foram de recapitulação do anime original — o que seria aceitável caso a resolução fosse satisfatória, o que não é o caso (fora que durante a série já havia existido um episódio com a função de recapitular eventos)  —. Não somente adiaram, como não concluíram, utilizando tempo, onde poderiam o ter feito, em conteúdo repetido.

Espero que algum dia uma sequência seja lançada para que as pontas soltas finalmente tenham alguma solução, porque da forma que terminou, seu ato final quase comprometeu os anteriores. O sentimento final é que tudo que foi apresentado de nada serviu.

Yuukoku no Moriarty 2nd Season

Ano passado a primeira temporada foi lançada, fazendo uma releitura interessante de contos de "Sir Arthur", girando entorno de temas sociais através de uma estrutura que colocava o tradicional antagonista, Moriarty, como um anti-herói, o aproximando, dessa forma, do espectador.

Essa abordagem foi interessante, pois detalhava de forma pessoal e íntima as motivações dos personagens coautores envolvidos nos seus planos ilegais e de moralidade contestável. Já a presença de Scherlock como uma contra parte às ações dos justiceiros, introduzido tardiamente, adicionava tenção, trazia uma dinâmica diferente (afinal ele dessa vez não é o protagonista) e realizava a função de contestação necessária.

Porém, muitas questões ficaram pendentes e um dos pontos era o que o anime faria para justificar, convincentemente, que as ações do anti-herói eram erradas. Tinha essa dúvida porque diversos animes nessa fórmula narrativa ("shounens psicológicos") falharam nisso, precisando fazer com que seus personagens "cruzassem a linha" moral, para demonstrar essa justificação, ao invés de apresentar através de argumentos.

A temporada teve dificuldade de criminalizar as atitudes de Moriarty, pois mesmo realizando práticas fora da lei, na ótica apresentada (onde é protagonista) não existem contra pontos que levem o espectador a questionar sua ideologia e planos de ação.

O pior é que quem deveria argumentar de forma contrária, tendo um embate moral contra ele, "Scherlock", não o faz. Preferem perder tempo introduzindo personagens sem relevância para a reviravolta principal, em detrimento desenvolver o que importa. Ainda encerrando o duelo entre eles com uma dinâmica  sem o menor sentido, que o descaracterizou.

Os mini arcos presentes são desnecessários, tomando tempo que poderia ter sido melhor aproveitado, e o trabalho de verossimilhança decaiu, onde situações falham em ser críveis; existe um episódio onde um dos Moriartys vence um duelo judicial, fazendo sua própria defesa, sem provas e coagindo a parte contrária, NA FRENTE DO JUIZ.

Quanto a parte de produção e artística o anime é o mesmo, isso significa que: a representação histórica é muito competente; animação agradável (existem algumas variações positivas, já que a temporada apresenta mais cenas de ação); e a trilha sonora ótima. Infelizmente o diretor não conseguiu dar o mesmo impacto para as cenas tensas, e conduziu sequências de ação que beiravam o ridículo, dado o contexto.

Infelizmente a temporada final caiu nos mesmos problemas de outros animes semelhantes, dos quais provavelmente foi inspirado. Não é ruim, principalmente pela primeira parte, mas também não é nem de longe aquilo que aparentava que ser.

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