Melhores Animes “Novos” de 2021

 Apenas animes em formato de série que estrearam em 2021, ou começaram em 2020 e terminaram em 2021, são considerados, ou seja, sem continuações ou filmes.

 

Bishounen Tanteidan 

Existe uma parceria que rendeu algumas das melhores e mais criativas adaptações nos últimos anos, a que contem "ISIN NISIO", autor das novels de Monogatari; estúdio "Shaft"; e o diretor "Shinbou" conhecido por Monogatari, "3 Gatsu no Lion" e "Madoka Magica".

"Bishounen Tanteidan" é mais uma produção que engloba essa equipe com resultado agradável.

O enredo é iniciado com a protagonista, "Mayumi", observando as estrelas no terraço da escola, quando é abordada por, "Manabu", que faz algumas perguntas e eventualmente chega na conclusão que ela precisava de ajuda para solucionar um desejo: encontrar uma 'estrela' específica. Depois desse encontro e motivação peculiar ser apresentada, ele a introduz a seus amigos, membros da agência secreta dos "Detetives Bonitos", um grupo com habilidades notáveis dispostos a solucionar mistérios.

Após descobrirem sobre o desejo, descrições das condições em que essa havia avistado o astro e o porquê da vontade de revê-lo, partem em busca de pistas, eventualmente esbarrando em uma situação curiosa, inesperada e de grande dimensão.

A obra transita entre a lógica  de "Zaregoto", e o lado mais absurdo de "Monogatari"; com elementos da dinâmica investigativa do primeiro, porém com a leveza da abordagem e estrutura de arcos presente no segundo. — Lembra também uma mistura de "Ouran Host Club" e "Hyouka" —.

O roteiro é bom e geralmente apresenta soluções convincentes para as problemáticas, procurando manter lógica e coerência com as pistas apresentadas. O desenvolvimento dos personagens, tanto do núcleo principal, como nos coadjuvantes, é excelente, algo de praxe do autor, que sempre consegue criar personalidades cativantes, com motivações verossímeis no contexto criado.

Da mesma forma que as adaptações anteriores a narrativa desempenha um papel fundamental para que sua trama excêntrica funcione. É bem verdade que a densidade e criatividade dela não é tão grande e impactante como outras obras do autor, porém, a identidade foi mantida.

Esteticamente e tecnicamente é perfeito. Um ponto crucial foi a direção de cores, muito vibrantes e coloridas, (Yasuko Watanabe) que deu charme para o tema, centrado em "garotos muito bonitos", assim como o character design, que tem os elementos clássicos do estúdio, porém, representou perfeitamente a atmosfera de 'beleza', remetendo aos animes de shoujo com personagens dentro desse arquétipo.

A execução de Shinbou dispensa comentários. Novamente ele tem uma abordagem muito visual das mensagens tratadas, utilizando de referências, metáforas, experimentações e variações de cenas. Um simples diálogo torna-se dinâmico e atraente por conta da inquietude de sua, original, linguagem de direção.

Para quem gosta de obras onde qualquer um dos principais nomes estiveram envolvidos esse anime é mais que recomendado. Mas, mesmo quem nunca assistiu nada deles e busca uma direção inventiva, distante da mesmice, também é uma excelente opção.

Blue Period

Uma dos mais esperados da temporada de outono, foi para muitos uma decepção, isso porque suas características de produção e principalmente sua estética deixaram a desejar. Ainda para alguns, a ausência de qualidades, aliado ao fato de ser um anime com temática de artes também um agravante.

Como minhas expectativas eram baixas consegui apreciar os pontos fortes da adaptação, porém, respeito aqueles que tiveram sentimentos contrários, afinal, também tive minhas decepções.

O enredo é centrado no protagonista "Yatora" descobrindo sua verdadeira paixão e desejo de carreira tardiamente, próximo ao final do colegial. Por conta da situação financeira de sua família, e sua descoberta repentina esse tem de lidar com as expectativas e pressão, obrigado a recorrer a uma única opção, um vestibular muito concorrido para uma universidade pública, o que dá um sentimento de urgência para a narrativa, já que essa seria sua única chance.

Por ser um novato no universo artístico tem de absorver conhecimento incessantemente, participando do clube de arte da escola, de um cursinho preparatório e compartilhando conhecimentos com amizades que faz. Passando por um árduo período de aprendizado, enquanto tem de lidar com suas limitações, pensamentos recorrentes de dúvida, expectativas e as consequências de uma rotina frenética.

Essa jornada pessoal é narrada de forma fluida e interessante, e um dos motivos para isso é o quão orgânica é a interação dele com os coadjuvantes, que possuem profundidade e dramas verossímeis. Meus destaques são "Ryuuji", um dos mecanismos do anime para abordar uma situação complexa e importante, e "Maru".

Os temas principais são autoconhecimento, aceitação pessoal e relações familiares, mas outros como a rivalidade, por exemplo, também são presentes, não com o mesmo impacto, porém, suficientes. Claro que a "arte" tem destaque, adaptação apresenta diversos conceitos sobre o universo artístico, onde o protagonista aprende novas técnicas, evolui seu raciocínio, e a maneira como enxerga a atividade e suas capacidades, realizando isso sem diálogos engessados (a exposição é bem maquiada).

O anime foi feliz em demonstrar progressivamente como ele cresce em busca de seu objetivo e em introduzir os conceitos de seu tema, conseguindo conectar e aproximar o espectador dessa jornada pessoal. Dessa forma, superando seus problemas técnicos a ponto deles serem apenas um pequeno contra tempo.

Fumetsu no Anata e

Em 2016 uma adaptação de Yoshitoki Ooima, "Koe no Katachi", comoveu a comunidade por conta de seus temas sociais importantes, personagens e momentos emotivos. Esse ano mais um excelente trabalho dela recebeu uma adaptação, e conseguiu, mesmo que com alguns problemas de produção durante sua temporada, atingir efeito semelhante.

"Futmesu no Anata e", apesar de dessa vez apresentar uma trama fantasiosa — girando em torno de um ser imortal, que consegue assumir a forma de outros que tem contato e posteriormente falecem, que por interações com outros humanos, durante seus anos na Terra, gradativamente vai criando emoções humanizadas — novamente toca em temas espinhosos, abordando diversos sentimentos e temas complicados como: culpa, preconceito, classes sociais, redenção, religião e responsabilidades; porém focando em dois: lembranças e perdas; e dessa forma demonstrando como os coadjuvantes que cercam o protagonista, mas principalmente ele, lidam com essas condições. A competência da narrativa em apresentar e desenvolver esses personagens, frente aos diferentes temas e contextos, da peso significativo para seus dramas, sucedido em impactar e criar empatia no espectador.

Como mencionei há problemas na produção, com o decorrer da temporada há uma queda de qualidade evidente, e também alguns de roteiro, como uma conveniência aqui e ali, porém os elementos narrativos, elementos únicos do universo, trilha sonora (contando com Hikaru Utada na abertura) e dublagem, compensaram esses percalços.

Heike Monogatari

Com uma equipe composta por Naoko Yamada (diretora em K-ON, Koe no Katachi, e fez parte da equipe de clássicos da Kyoto Animation), Eriko Kimura (diretora de som de animes como Gundam, Tatami Galaxy e Devilman), e Reiko Yoshida (roteirista de Aria, Seisou-hen e Koe no Katachi); estúdio Science SARU; e sendo a adaptação de um clássico conto japonês; as expectativas eram muito altas, mas felizmente não decepcionou, entregando uma das mais tristes, críveis e densas tramas do ano, e entrando em uma restrita categoria de bons animes sobre samurais.

O anime adapta o conto "Heike Monogatari", que de forma semelhante ao que acontecia com os contos gregos, narra um evento histórico; no caso, as batalhas entre os clãs "Taira (o "Heike" do título é referente a esse clã)" e "Minamoto" durante a era feudal; com a adição de elementos místicos e fantasiosos.

A narrativa é contada do ponto de vista da protagonista "Biwa" (o nome é referente a um instrumento da qual toca, mas que também fora objeto auxiliar de contadores de histórias no passado, utilizado inclusive pelos monges que espalharam o conto pelo país de forma cantada, antes de ser compilado), uma garota, filha de um pai solteiro, que presencia a morte desse por soldados do clã Taira. Na época a grande potência militar do país, que agia de forma hostil com quem aparentemente fosse contra seu modelo de controle.

Após viver sozinha nas ruas, ironicamente, ela é acolhida por "Shigemori", um dos filhos do líder dos Taira. Dessa forma vivendo em um dos núcleos familiares, e posteriormente conhecendo todos os membros do clã que lidera os soldados que causaram sua maior perda.

Vivendo no novo ambiente gradativamente se apega as figuras que convive. Onde coadjuvantes cativantes e carismáticos; como: os filhos de Shigemori, "Tokuko", que vem a se tornar a melhor amiga de Biwa, o próprio "Kiyomori" (líder do clã), e posteriormente grandes figurões como o imperador; são introduzidos.

A ideia inicial é demonstrar como a personagem lida com a nova realidade e os sentimentos conflitantes de viver sob a tutela de pessoas ligadas, mesmo que indiretamente, a sua maior desgraça; mas também com um poder que possui, um olho que consegue ver o futuro, algo que a machuca, já que pode, por exemplo, enxergar o momento da morte de pessoas queridas.

Porém, depois de algumas tramas políticas e eventos específicos o rumo da família começa a mudar e essa entra em conflitos, onde observamos guerras, sucessões, o desenvolvimento de cada um dos principais coadjuvantes e o destino do clã. Assim, novos acontecimentos e figuras históricas começam a ser apresentados durante o desenvolvimento.

Por abordar guerra e política, situações complexas e temas específicos que englobam esses âmbitos são presentes. A obra expõe a crueldade e tensão de um ambiente de violência, e demonstra de forma sutil como as escolhas e atitudes dos líderes impactam no modo de vida e futuro daqueles que vivem ao seu redor e os servem. O arco final é o principal exemplo disso, conduzido de uma forma angustiante e melancólica, progressivamente machucando o espectador pela lenta e decadente situação. Ainda assim, existe muita beleza, ótima contextualização, discrição histórica e cultural (a religião é excelentemente apresentada, por exemplo).

— Uma característica que adoro nesse anime é como demonstra que a guerra torna pessoas em monstros, e o lado errado da situação apenas depende de perspectiva. Em nenhum momento isso é explícito, mas é perceptível. Biwa inicialmente odeia os Taira porque mataram seu pai e saquearam vilas, porém, depois de conhecer as pessoas do clã cria empatia por eles, pois é perceptível que agem conforme ordens e contexto. Quando esse deixa de ser o clã com as rédeas, presencia outros rivais fazendo exatamente as mesmas coisas, agindo da mesma forma, só que agora contra aqueles que antes eram seus agressores, mas são agora são queridos para ela. É irônico e muito realista —.

Como é uma obra do Science SARU é claro que o design e animação geram discussões, porém: o design é ótimo objetivamente e combina muito com a ideia de capturar a estética de arte japonesa do período; já a animação, dessa vez, realmente não foi das melhores, no geral é bem simplória, o que prejudicou as batalhas, que perderam a oportunidade de serem memoráveis. Algo que pessoalmente me incomodou foi a trilha sonora, que trouxe faixas de gêneros contemporâneos, algo que em um contexto de um anime histórico, ficou deslocado da atmosfera geral. Já a direção é ótima e conseguiu desenvolver cenas super emotivas e construir, como poucos, tensão, e mesclou com perfeição os elementos sonoros, principalmente os culturais a respeito da "biwa" com a trama.

Uma adaptação praticamente perfeita de um clássico, sobre um importante evento histórico, e isso por si só já deveria ser motivo para ser assistido, porém, é também um anime que constrói dramas e personagens com muita verossimilhança, transmite mensagens impactantes e apresenta as tensões políticas com clareza. Poderia ser melhor com batalhas memoráveis, mas, ainda é um dos mais notórios animes sobre samurai já feitos.

Horimiya

Miyamura é um garoto recluso com traumas que criaram dificuldades em sua vida escolar, além disso, esconde alguns "segredos", porém, depois de um acontecimento, onde conhece o irmão mais novo de Hori (a garota mais popular de sua classe) e cuida dele, começa uma amizade improvável com a garota, que eventualmente progride a um romance.

A trama é procedural situada durante o período de um ano letivo, no caso o último dos personagens, algo utilizado como tema de reflexão em certos momentos, no sentido da angústia e dúvidas sobre a transição de estilo de vida.

O que foge um pouco da tradicional dinâmica de slice of life e romance são os momentos centrados no relacionamento dos dois protagonistas, a obra não enrola para os tornar um casal, o que permite a abordagem de situações mais interessantes e diferentes daquelas que já visitamos diversas vezes em animes do gênero — ninguém aguenta mais esperar 12 episódios para os personagens darem no máximo um beijo no final do cour —. Os personagens saem em encontros, conversam sobre assuntos cotidianos, tem contato físico, trabalham, estudam, conversam com amigos, etc. Por mais banal que isso seja, torna a narrativa crível, interessante e cativante.

Paralelo ao desenvolvimento dos dois protagonistas, e como cada um influência um ao outro, há também a presença de bons coadjuvantes e suas problemáticas, todas girando entorno do mesmo tema "romance". Uma pena que no caso desses tais não tenham tanta relevância, e em alguns casos terminem sem conclusão, algo que é uma herança do material original e poderia ter sido modificada.

Houveram algumas críticas dos fãs direcionadas as mudanças realizadas pelo roteirista (Takao Yoshioka), principalmente nos cortes, porém, pela ótica de quem não havia lido o mangá antes de assistir o anime, não senti em nenhum momento que algo ficou artificial ou confuso por ausências. Ficou enxuto, porém, o cerne foi adaptado: a relação dos dois personagens principais, o que realmente importa.

No fundo, ainda é um romance escolar com muitos dos arquétipos e clichês convencionais, porém, por trazer pequenos rompimentos com a estrutura engessada do gênero conseguiu ser mais notório.

Jujutsu Kaisen

Apesar de ter começado sua exibição na temporada de outono de 2020, foi finalizado apenas ao final da temporada de inverno de 2021, por conta disso está nessa lista.

O que falar sobre Jujutsu Kaisen que já não tenha sido dito? Esse foi um dos animes mais populares do ano, com totais méritos.

Sua trama não tem uma estrutura mirabolante, ou algo que fuja daquele formato "shounen jump" de battle shounens, porém, como qualquer um de seu tipo que ganha destaque, teve um universo criativo, competentemente explicado, personagens carismáticos, que funcionam muito bem juntos, e de motivações chamativas. Pilares cruciais em seu formato.

Além disso, os elementos aterrorizantes foram um grande diferencial, o que permitiu ao diretor (que fez um trabalho fantástico) a oportunidade de experimentar, trazendo o interesse dos entusiastas de animes de ação, mas também apelando a outros nichos (existem cenas que pendem, por exemplo, para o terror e suspense aproveitando das características da temática).

Claro que o maior destaque foi a produção. A "MAPPA" entregou seu projeto mais impressionante, com animação de espantadora fluidez, sequências de ação grandiosas e direção artística estonteante. Talvez apenas com suas características narrativas o sucesso não tivesse sido tamanho, então é necessário congratular o estúdio por realizar um anime que corresponde com as exigências principais em obras de ação.

Apesar de apenas uma temporada esse já é um dos ícones de battle shounens modernos, imagino que todos tem grandes expectativas para as próximas temporadas.

Kageki Shoujo!!

Uma das minhas demografias favoritas é o shoujo, por que tenho a sensação que a maioria das obras presentes dentro dessa, mesmo que, geralmente, tenham que seguir uma estrutura definida, apresentam maior atenção ao detalhamento da personalidade e sentimentos dos personagens. Algo que Kageki Shoujo dominou durante sua temporada.

O anime narra a estória de "Sarasa"; uma adolescente nascida em uma família de atores, que está em busca de tornar uma atriz de uma renomada escola, "Kyouka"; e da co-protagonista "Ai", uma ex idol, que por problemas envolvendo seu comportamento acabou deixando sua produtora e também está em busca de passar no teste.

Ambas acabam se conhecendo durante os resultados do exame de ingresso, onde Serasa tenta se aproximar de Ai, mas inicialmente essa a evita. Essa dinâmica é a principal da introdução, e a maneira que ambas gradativamente se aproximam é diretamente ligada ao arco pessoal da segunda.

No geral o ritmo da narrativa é agradável, porém sua introdução talvez seja o único ponto em que falha. É um pouco atropelada, artificial, e alguns personagens são caricatos durante o ato, algo que muda de figura, a partir do episódio 4, onde as motivações e passado delas começam a ser explorados.

Temas como androfobia e os motivos desse trauma, linhagem, dogmas artísticos, pressão de fãs, exigências estéticas e problemas que isso pode acarretar no universo artístico, busca por sonhos e o que há de ser abdicado nessa busca, talento versus empenho, amizade, romance e rivalidade, são abordados, e todos, até mesmo os mais densos, como o primeiro, de forma respeitosa e bem desenvolvida. Esses são diretamente ligados tanto ao desenvolvimento pessoal quanto universo do anime, o que permite que sejam mais fáceis de se identificar.

Paralelo a isso há a excelente contextualização do ambiente da escola, com professores bem desenvolvidos que influenciam nas atitudes e aconselham as garotas; há também a presença da interação com os alunos mais antigos, o sistema de hierarquia e admiração sendo exposto; e claro as competições, audições, dúvidas e dramas que a atmosfera competitiva e rigorosa traz.

Lamentavelmente a produção não foi nem de longe no nível do roteiro e narrativa. A direção de arte é pouco inspirada e a animação é o principal destaque negativo.

Por se tratar de um anime no universo da atuação, com personagens que precisam melhorar suas capacidades e interpretar personalidades, a versatilidade dos seiyuus foi crucial para a imersão do espectador, sendo ótimas em interpretar as falhas, performances notórias e melhora das personagens.

Esse é um daquelas animes que surgem por fora do radar das grandes expectativas, mas que surpreende pelas suas qualidades. A capacidade de discrição de seu universo e inserção dos personagens, com características distintas e críveis, dentro dele é impressionante.

Odd Taxi 

Por conta do sucesso de Beastars é difícil de não comparar ou correlacionar outro anime sobre animais antropomorfos, vivendo em uma sociedade semelhante à humana, a ele. Porém, Odd Taxi não somente difere, como suas características e qualidades, principalmente de seu excelente e muito bem amarrado roteiro, o categorizam como provavelmente o melhor com essa temática.

Sua estrutura gira entorno de desenvolver um grande mistério que engloba vários núcleos diferentes, onde os coadjuvantes, mesmo que inicialmente não aparentem, são gradativamente aproximados ao drama de Yoshida, o protagonista, um taxista que é envolvido, por acaso, em um mistério do desaparecimento de uma garota, filha de figurões, que transportou em seu taxi. — O estilo de narrativa lembra um noir fundido com dramas de máfia japoneses, o crime organizado tem protagonismo em grande parte —.

As reviravoltas são impactantes, e a conclusão de cada arco ao final justifica a existência de tantos núcleos diferentes. Presenciar como cada um desses tem ligação um ao outro, mesmo que não diretamente é impressionante.

Infelizmente a produção não é no nível de sua trama, principalmente em animação, porém ainda assim, há elementos artísticos que os compensam, e no fim essa consegue ser suficiente para a proposta do anime, que não exige tanto de valências técnicas.

A melhor e mais organizada narrativa, e um dos melhores enredos do ano. Vale muito a pena assistir, mesmo que a estética não seja do agrado.

Shadows House

Adaptação de uma obra escrita e ilustrada por "Soumatou", é um anime de fantasia e mistério com elementos de suspense e terror inseridos em uma narrativa mais direcionada ao público jovem, lembrando obras do cineasta Tim Burton e contos infantis com elementos macabros.

Nesse universo existe uma mansão misteriosa e conceituada onde "sombras", membros de uma família de similares, que possuem personalidade e identidade, assim como humanos, tem "bonecos" idênticos a sua silhueta (também com personalidade própria) para representar suas expressões em encontros sociais, e servi-los nos trabalhos domésticos.

Como "Kate" (uma sombra), uma das protagonistas, ainda é membro recente dessa família precisa preparar "Emilico", a outra protagonista, sua 'boneca', para passar em um teste, que definirá sua ida a um andar superior da mansão.

Durante o decorrer os mistérios envoltos ao funcionamento e figuras principais da peculiar mansão começam a ser desvendados, e outras questões a respeito da natureza das sombras, origem das bonecas e o desenvolvimento do relacionamento das protagonistas e coadjuvantes, que também estão na mesma situação, são apresentados.

O roteiro (Toshiya Oono) é competente em prender a atenção e capaz de ocultar com eficácia as informações, fazendo bom uso da excelente lore do universo para manter o espectador entretido e curioso. Mesmo que dentro de um formato batido, as peculiaridades conseguem definir sua originalidade, conseguindo surpreender em algumas oportunidades. A ideia de "bonecas" que precisam representar as expressões dos "mestres" humanoides é por si só curiosa e dotada bizarrice (no bom sentido), o que ajuda construção da estranha atmosfera, por vezes pesada, instigante e incomoda, e outras divertidas, leve e agradável.

Além de uma premissa única o anime também apresenta uma boa produção realizada pelo estúdio Clover Works. Animação é consistente e a direção (Kazuki Oohashi) é competente, entregando boas cenas nos mais diferentes momentos, tensão, drama, mistério, aventura e slice of life.

Shadow's House tem uma premissa curiosa que consegue manter-se fresca graças ao enredo que segue apresentando novas situações até sua conclusão.

Shiguang Daili ren (Link Click)

Passou da hora de produções chinesas pararem de ser subestimadas, pois, existem diversas de qualidade. "Link Click", uma surpresa de 2021, é o perfeito exemplo disso.

Os protagonistas "Cheng" e "Lu" trabalham em uma loja de fotos de "Ling", onde exercem trabalhos especiais de entrar em fotos e explorar memórias de clientes em busca de realizar trabalhos específicos. Porém, essa dinâmica abre brecha para interferências temporais, já que nas fotos esses, caso modifiquem elementos importantes/chave, podem mudar o curso dos eventos.

No primeiro episódio, por exemplo, são contratados para descobrir se uma secretária teria roubado a empresa que trabalhava. Dessa forma entrando em uma foto tirada por ela e assumindo seu corpo durante os eventos passados (Lu é o assistente que passa informações e objetivos para Cheng, que entra no passado e controla as pessoas que tiraram as fotos). Nos eventos do passado eles presenciam não apenas os eventos-chave mas também momentos cotidianos, o que faz com que diversas vezes envolvam-se afetivamente com os indivíduos, principalmente aqueles que Cheng assume, sendo esse um dos grandes motivos dos dilemas morais da obra e também principal causador dos dramas enfrentados, onde ele tem de evitar a todo custo, mesmo envolvido emotivamente, influenciar nos acontecimentos.

A narrativa é procedural focando em como lidam com os casos que trabalham, onde arcos de coadjuvantes são desenvolvidos e seus dramas, de alguma forma, conversam com a personalidade e motivações dos protagonistas, o gera algumas das cenas mais tristes e emocionantes da obra. Porém, gradativamente a trama geral vai sendo construída, onde um grande conflito começa a entrar no caminho dos dois. Há diversos temas complicados abordados, porém, família e amor são os mais recorrentes.

Existem algumas conveniências, facilitações narrativas e momentos canastrões um pouco incômodos (o humor e alívio cômico também, definitivamente, não funcionam), porém algo pequeno em relação às qualidades do roteiro.

A animação é bastante competente, rendendo cenas agradáveis de ação em momentos específicos, já o character design e direção de arte é bem "protocolar", sem aspectos chamativos, já a direção; ótima em criar tensão, fazendo algo muito interessante em episódios específicos quando espelha situações do presente com o passado, ligando situações revividas por "Cheng" e pessoas envolvidas nos casos, com os sentimentos dele, criando conexão emocional dos personagens com os dramas (o anime é ótimo em construir personagens e criar empatia, sendo muito orgânico e verossímil nessas ocasiões); e trilha sonora são os destaques. O ponto mais baixo é a dublagem original, que diminui um pouco do impacto das cenas, não transmitindo a urgência e choque necessário.

Uma boa temporada introdutória que conseguiu definir as bases do universo de forma nítida, desenvolver as personalidades, levantou mistérios intrigantes e soube dar causa e consequência, não endossando atitudes dos protagonistas e expondo os resultados delas, algo essencial em tramas sobre viagem no tempo.

Sonny Boy

Sonny Boy é um anime experimental, o que para alguns pode, de início, aparentar que tenta ser pretensioso, porém, graças a qualidade de seu excelente roteiro; personagens bem construídos; dramas identificáveis e densos; dinâmica narrativa intrigante; e principalmente universo peculiar (um isekai que vai à tangente de todos os atuais); provou, durante seu decorrer, que tudo que apresentou foi motivado, e as experimentações justificadas artisticamente e narrativamente.

Na trama uma turma de um colégio é inteira transportada para um "limbo", onde apenas eles são presentes na escola, como se tivessem sido arrebatados. No local desenvolvem poderes individuais, o que em conjuntos a ausência de professores e regras para controlar os alunos, cria conflitos.

Após buscar por respostas, essencialmente de como voltar a realidade/mundo original, eventos acontecem e esses são transportados para um novo mundo, com regras específicas, descobertas eventualmente por empirismo. Essa mesma dinâmica segue durante grande parte da obra, onde os mistérios começam a receber resoluções graduais, mas novos questionamentos sobre o peculiar universo são levantados. Ao mesmo tempo, há a construção das relações, tensões e dramas pessoais dos personagens transportados, onde temas sociais e filosóficos são tocados — mesmo que esse seja um anime centrado em elementos de fantasiosos, esses são utilizados como metáforas ou pretextos para dialogar com a realidade —.

Todos os arcos individuais são ótimos e as motivações são convincentes, o que faz com que cada personagem seja orgânico e funcione nas discussões levantadas. Dramas como os do episódio de "Kodama", e a conclusão fria, porém madura, são tocantes e realistas, deixando um vazio intencional.

Sua direção de arte é super criativa, um dos principais elementos do anime, há variações de estilos artísticos, traços e design durante transições e cenas. A animação é muito competente para o gênero, e a direção consegue demonstrar identidade e, mesmo experimentando muito, ser agradável ao público não habituado ao tipo de obra.

Para quem gosta de animes de "dementia" (ou como os sites de catalogação agora chamam, "Avant-Garde"), esse resgata, em diversos pontos, os elementos dos clássicos com essa abordagem, lembrando, especialmente, os semelhantes do próprio estúdio Madhouse durante os anos 90 e 00.

Vanitas no Karte

Como citei em Bishounen Tanteidan a equipe da Shaft ao longo dos últimos anos nos presenteou com excelentes produções, e Vanitas apesar de não ser do estúdio contou com alguns membros que trabalharam nele, sobretudo em temporadas de Monogatari, e por conta da presença deles, em conjunto a um bom material original, esse se tornou um dos melhores animes de shounen, e vampiros dos últimos anos.

Adaptando um mangá escrito por "Jun Mochizuki" (autora de Pandora Hearts), a trama gira entorno de dois protagonistas "Vanitas", um humano misterioso membro de um clã de vampiros temido e tido como amaldiçoado por outros, que diz ser um doutor com a intenção de purificar vampiros corrompidos por uma "entidade" chamada "Charlatan", e Noé, um vampiro com habilidade de ver as memórias daqueles que suga o sangue.

A maioria dos vampiros detesta humanos, e a maioria dos humanos os teme. As diferenças entre esses dois tipos de seres é um dos temas, algo claro, pois cada personagem principal pertence a grupos diferentes, mas também pela interação de Vanitas com outros vampiros, como "Jeanne", por exemplo, e Noé, com humanos como "Roland".

Em determinado ponto da trama o anime aborda grupos da segunda "raça" que caçam vampiros, como um modo de romper com a estrutura previsível. Existem vampiros perigosos como sua natureza sugere, mas também humanos tão, às vezes até mais perigosos quanto.

Durante a introdução ambos acabam se juntando por acaso, e após Vanitas curar uma vampira Noé começa a segui-lo por interesse, onde ambos acabam envolvidos em outros mistérios que sempre os direcionam à Charlatan.

Esses são bem conduzidos e desenvolvidos com calma, deixando pistas durante os arcos procedurais e pessoais até que finalmente começa a focar nas resoluções principais durante o clímax.

Dentre os aspectos o melhor é o desenvolvimento de personagens e interação entre eles. Os arcos individuais são ótimos, e no caso de Noé marcante. Os personagens secundários em sua maioria seguem arquétipos, porém mesmo dentro deles conseguem ser carismáticos. Um exemplo disso é Jeanne, a típica tsundere, mas com ótima química na interação com Vanitas (muito detalhada e divertida). Já os vilões são rasos.

Como citado anteriormente o diretor trabalhou na Shaft, junto de Shinbo, algo perceptível na identidade da linguagem de direção. Os enquadramentos, uso dos cortes, poses, conotação e atmosfera das cenas remetem imediatamente a seus trabalhos anteriores. Seguindo a qualidade está o trabalho artístico sensacional; é muito charmoso, tem excelente fotografia, uso inteligente das cores; design que remete ao traço "glamuroso" de josei, com personagens lindos e estilosos; e também fluidez da animação.

Vanitas no Karte tem personagens carismáticos, um mistério interessante, universo cativante, produção excelente e direção com identidade. Um battle shounen de qualidade rara, principalmente artisticamente.

Vivy: Fluorite Eye's Song

Musical, idols, androids, viagens no tempo e ação, o que tudo isso tem a ver? Aparentemente nada, porém, mais uma vez os animes provam que não existe premissa peculiar que eles não consigam desenvolver e Vivy traz todos os elementos citados em um enredo competente e divertido, sustentado por uma produção ótima do estúdio "Wit".

Iniciando de forma inesperada; com androids perdendo controle e assassinando seres humanos, e voltando ao passado, quando a protagonista Vivy é contatada por uma IA, "Matsumoto", envidada a sua data para solicitar ajuda para mudarem o futuro; o anime já define, de forma dinâmica, sua premissa, onde ambos terão de cooperar para impedir eventos-chave, os gatilhos para o desastre futuro (no caso, androids perderem o controle).

O que faz dessa ser interessante é que consegue unir conceitos aparentemente desconexos de forma funcional e utiliza-los como elementos refrescantes dentro de uma premissa batida (homem contra máquina, e humanização gradativa dessas), mas também, sua a qualidade de animação e direção de impressionantes sequências de ação.

Como mencionado há o gênero do musical e por conta disso há diversas insert songs notáveis alocadas em momentos planejados que ampliam, substancialmente, o tom dramático das cenas. O trabalho de dublagem e das composições é acima da média, características essências para o funcionamento dessa "mistura" incomum de gêneros.

Apesar de existirem incoerências na viagem no tempo, essas não chegam a romper com a suspensão de descrença, e a diversão consegue prevalecer, fazendo desse um dos mais interessantes animes de si-fi dos últimos anos.

Wonder Egg Priority

Com o potencial de ser um dos melhores animes da década, por abordar com criatividade, tato, profundidade e inteligência temas complexos relacionados a traumas que mulheres jovens enfrentam, Wonder Egg infelizmente teve, em sua conclusão, problemas que quase comprometeram seu desenvolvimento, encerrado de forma vaga e vazia, praticamente ignorando todos os mistérios e referências que havia introduzido anteriormente.

Ainda assim, o que foi realizado até tal ponto continua sendo memorável, não apenas pela qualidade do roteiro e situações orgânicas, mas também, originalidade de premissa, ótima direção, principalmente em momentos dramáticos, sequências de ação, animação e direção de arte, que foram acima da média de animes de série.

Foi decepcionante por seu final, porém, ao mesmo tempo, um dos mais marcantes, maduros e corajosos no ano.

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